sexta-feira, 9 de maio de 2014

LEITURA E COGNIÇÃO SOCIAL: 
UMA REVISÃO DA LITERATURA

THALES VIANNA COUTINHO
GABRIEL HORN IWAYA

Os benefícios da leitura para as funções cognitivas já são reconhecidos e debatidos há décadas, sendo ela considerada uma porta de entrada para o estudo da mente humana (Oatley, 2011).
Nos últimos anos, vem crescendo o número de investigações visando avaliar o impacto da leitura para a cognição social do leitor. Pelo fato deste tema ainda não ser muito explorado em língua portuguesa, optou-se por elaborar esta revisão.
Haja vista que a função da leitura de obras de ficção é simular a realidade (MAR & OATLEY, 2008), Mar (2011) sugere que ela possa aumentar a cognição social.

OBJETIVO E METODOLOGIA

O objetivo deste trabalho foi elaborar uma revisão da literatura que permitisse identificar o impacto da leitura para a cognição social dos indivíduos. Para tanto, foram utilizados os termos de busca: “Perspective Thinking”, “Theory of Mind”, “Reading”, “Story Comprehension”, “Narrative” e “Social Cognition”, na base de dados PubMed, selecionando artigos publicados entre 2008-2014.

RESULTADOS

Segundo Kidd et al. (2013) a leitura de obras de ficção permite o aumento da teoria da mente que, de acordo com Baron-Cohen (2004), é a base cognitiva da empatia.
De acordo com Bal (2013), a leitura de obras de ficção também aumenta a empatia do leitor quando a história induz uma espécie de “imersão emocional” (emotional transportation) ou que contenham personagens com os quais o leitor se identifique (CHEETHAM, 2014). Tal “imersão emocional” permite ao leitor uma tomada de perspectiva que o possibilita compreender a visão de mundo dos personagens constituintes do enredo da obra.
Adiante, scores mais elevados na avaliação de empatia foram observados em leitores assíduos de obras de ficção (DJIKIC, 2013), principalmente em indivíduos com o traço de personalidade “abertura para experiência”, obstante, entre leitores de obras de não-ficção parece haver um prejuízo social como solidão e menor suporte social (MAR, 2009).
Fong et al. (2013), aponta que a preferência por gêneros literários de romance e suspense/thriller é preditora de maiores níveis de empatia. Observou-se também que um dos mecanismos responsáveis pelo aumento desta empatia em leitores de obras de ficção é a capacidade de imaginary generation (JOHNSON, 2013).

CONSIDERAÇÕES FINAIS

Os dados apresentados permitem concluir que a importância da leitura de obras de ficção não se restringe ao desenvolvimento da memória e do vocabulário, mas também dos processos envolvidos com a cognição social. Essas evidências podem inclusive ter implicações clínicas, haja vista que determinados transtornos estão relacionados a uma redução na cognição social. Assim, o estímulo à leitura poderia ser uma estratégia complementar ao tratamento convencional desses pacientes. Além disso, esses resultados podem ser incorporados no desenvolvimento de estratégias de ensino nas escolas, faculdades e universidades, por demonstrarem um impacto positivo no desenvolvimento da cognição social e assim contribuir com a formação de indivíduos com maiores habilidades interpessoais.

“Os livros não mudam o mundo, quem muda o mundo, são as pessoas. Os livros só mudam as pessoas" (QUINTANA, 1966, p.57).

REFERÊNCIAS

Bal, P. M., & Veltkamp, M. (2013). How does fiction reading influence empathy? An experimental investigation on the role of emotional transportation. PloS ONE, 8(1), e55341.
Baron-Cohen, S. (2004). Diferença essencial. Editora Objetiva.
Cheetham, M., Hänggi, J., & Jancke, L. (2014). Identifying with fictive characters: Structural brain correlates of the personality trait. Social Cognitive and Affective Neuroscience, nst179.
Djikic, M., Oatley, K., & Moldoveanu, M. C. (2013). Reading other minds: Effects of literature on empathy. Scientific Study of Literature, 3(1), 28-47.
Fong, K., Mullin, J. B., & Mar, R. A. (2013). What you read matters: The role of fiction genre in predicting interpersonal sensitivity. Psychology of Aesthetics, Creativity, and the Arts, 7(4), 370.
Gazzaniga, M. S., & Heatherton, T. F. (2005). Ciência psicológica: mente, cérebro e comportamento. Artmed.
Johnson, D. R., Cushman, G. K., Borden, L. A., & McCune, M. S. (2013). Potentiating empathic growth: Generating imagery while reading fiction increases empathy and prosocial behavior. Psychology of Aesthetics, Creativity, and the Arts, 7(3), 306.
Kidd, D. C., & Castano, E. (2013). Reading literary fiction improves theory of mind. Science, 342(6156), 377-380.
Mar, R. A., & Oatley, K. (2008). The function of fiction is the abstraction and simulation of social experience. Perspectives on Psychological Science, 3(3), 173-192.
Mar, R. A., Oatley, K., & Peterson, J. B. (2009). Exploring the link between reading fiction and empathy: Ruling out individual differences and examining outcomes. Communications, 34(4), 407-428.
Mar, R. A. (2011). The neural bases of social cognition and story comprehension. Annual Review of Psychology, 62, 103-134.
Oatley, K. (2011). Fiction and its study as gateways to the mind. Scientific Study of Literature, 1(1), 153-164.

Quintana, M. (1966). Antologia poética. Editora do Autor.

quinta-feira, 17 de outubro de 2013

RESENHA  CRÍTICA DOS FILMES: “CIDADE DE DEUS” E “O JARDINEIRO FIEL”
1. Identificação dos filmes
CIDADE de deus. Direção: Fernando Meirelles, Katia Lund. Roteiro: Braulio Mantovani. Intérpretes: Alexandre Rodrigues, Leandro Firmino da Hora, Seu Jorge, Matheus Nachtergaele, Douglas Silva, Jonathan Haagensen, Darlan Cunha e outros. Brasil: Imagem Filmes, 2002. 1 filme (130 min) color.
O JARDINEIRO fiel. Direção: Fernando Meirelles. Roteiro: John Le Carré. Intérpretes: Ralph Fiennes, Rachel Weisz, Danny Huston e outros. EUA: Universal Pictures do Brasil, 2005. 1 filme (129 min) color.
2. Problema proposto:
Por que o ser humano comete ações violentas e antiéticas?
3. Resumo dos filmes
3.1 Cidade de deus
Cidade de deus é um conjunto habitacional criado pelo governo municipal do Rio de Janeiro como parte de um projeto de política pública para remoção de favelas de outras áreas da cidade. Famílias desabrigadas que teriam sido retiradas de tais áreas e/ou perdido suas casas em enchentes que ocorreram na época, foram mandadas para o bairro da Cidade de deus. Cidade de deus ainda hoje se caracteriza por ser uma das favelas cariocas de maior vulnerabilidade social e é nesse meio que se dá a história de Buscapé.
Buscapé é um morador nascido e criado na Cidade de deus e é através do desenrolar da vida desse personagem que Mantovani expressa à forma com se constroem as relações de poder nessa favela carioca. Buscapé vive preocupado em traçar um caminho contrário ao do banditismo e na sua adolescência desenvolve uma grande curiosidade pela fotografia. No decorrer da sua vida é descoberto e salvo pelo seu destino devido ao seu talento em tirar fotos e acaba conseguindo seguir carreira nessa profissão.
Cidade de deus mostra de forma perturbadora uma face da realidade humana, extremamente violenta, ao mesmo tempo em que denuncia a falência do estado, incapaz de auxiliar sua população, em uma comunidade regida pelas suas próprias leis e modos de resolução de conflitos, a margem da sociedade e da constituição brasileira.
3.2 O jardineiro fiel
A jornalista Tessa é assassinada no Quênia e principal suspeito do crime é um médico (Arnold) da região que viajava com ela. Insatisfeito com as investigações, seu marido, um diplomata britânico (Justin Quayle), começa a procurar os culpados por conta própria e descobre um esquema conspiratório complexo envolvendo líderes políticos e multinacionais farmacêuticas e teste de medicamentos em seres humanos.
 Os testes aconteciam simultaneamente à distribuição de medicamentos para o tratamento de AIDS. Os indivíduos que quisessem receber a medicação para o tratamento do HIV teriam que aceitar também serem medicados com um uma nova droga (nevirepina), em faze de testes, para o tratamento de tuberculose. A grande companhia farmacêutica “Three Bees” junto com a “KDH” eram quem distribuía os medicamentos e fazia o acompanhamento dos pacientes tratados, ocultando – é claro – os severos danos colaterais causados pela medicação em fase de testes.
O filme aponta as fortes relações de poder que se constroem, por traz de interesses econômico e políticos, contrárias a preceitos morais básicos e permeados por processos de corrupção escusos. Esse retrato trágico das consequências de um perverso sistema neoliberal apontam o quão descartáveis são as vidas humanas frente à lógica capitalista global.
 4. Crítica do resenhista
            O ser humano é por natureza um ser social. Ou seja, depende fundamentalmente de suas relações interpessoais para sobreviver. De acordo com a teoria de necessidade de pertencer, proposta por Baumeister & Leary (1995 apud GAZZANIGA & HEATHERTON, 2005) esse comportamento desenvolveu-se por representar uma forte vantagem adaptativa no curso da evolução da espécie humana, aumentando as chances de sobrevivência e reprodução/transmissão de genes, mas também pode ser ele a causa das maiores atrocidades históricas que a espécie humana já viveu.
            Em paralelo com essa teoria, duas tendências comportamentais desenvolveram-se por representarem possíveis vantagens a curto e longo prazo, sintetizadas no binômio cooperação/egoísmo:
·         A cooperação apresenta vantagens em longo prazo e é fundamental para a manutenção das relações interpessoais dentro de um grupo social.
·         O egoísmo maximiza a busca da realização de interesses em curto prazo e apresenta-se mais visivelmente quando os indivíduos acreditam que os outros integrantes do grupo também estão seguindo esse viés estratégico.
Contudo, se todos estiverem pensando dessa forma, então pouco provavelmente este grupo conseguiria manter-se estável por muito tempo, contrariando assim a própria natureza humana exposta na teoria de necessidade de pertencer o que leva a crer que os indivíduos dentro de um grupo também desenvolveram estratégias para detecção e punição de infratores – egoístas (GAZZANIGA & HEATHERTON, 2005).
            Além desse dilema social que os indivíduos dentro do grupo enfrentam, existe mais três variáveis importantes a serem consideradas dentro desses processos interpessoais – a conformidade às normas de grupo, a submissão e a obediência. A primeira diz respeito a normas sociais e padrões esperados de conduta que o grupo estabelece e a predisposição dos indivíduos a se conformarem com esses certos padrões, os reproduzindo mesmo quando individualmente os consideraram errados em um primeiro momento. Quanto à submissão e a obediência, estudos replicados em várias partes do mundo demonstram uma característica natural dos seres humanos em serem submissos e obedientes em determinadas situações (FORGAS (1998); FREEDMAN & FRASER (1962); MILGRAM (1961) apud GAZZANIGA & HEATHERTON, 2005).
Sendo assim, indivíduos cientes do poder de influência social podem empregar diversas estratégias para manipular o comportamento de outros indivíduos, desde crenças religiosas, hábitos alimentares, campanhas de marketing até grandes barbáries como a escravidão e genocídios como o holocausto (GAZZANIGA & HEATHERTON, 2005).
De acordo com a teoria darwiniana de seleção natural os nossos genes estão programados para adaptarem-se ao meio ou fenecerem. Isto sugere que nossos genes se replicam de modo egoísta. Então, seria possível que os genes se autorreplicassem sem cooperação? Absolutamente, não. Isto sugere a possibilidade de que, naturalmente, nossos genes trabalhem de forma egoísta e racionalizada, caricaturando-se como altruístas a fim de adquirirem benefícios em longo prazo, mas para isso teria que ter se desenvolvido também uma forma inconsciente de autoengano, pois, se todos os genes acreditassem-se realmente egoístas, dificilmente haveria possibilidade de cooperação para benefícios em longo prazo (ROSAS, 2011).
Tais questões quanto à natureza humana, a muito vêm sendo discutidas tanto na esfera científica como na esfera filosófica do conhecimento. Daí, só para destacar duas figuras importantes, temos: Thomas Hobbes (1588-1679) com sua concepção de homem terminantemente egoísta; e Jean-Jacques Rousseau (1712-1778) que acreditava em uma bondade original da natureza humana, expressa na figura do bom selvagem (PADOVANI & CASTAGNOLA, 1956).
Na psicologia esta dualidade inerente à natureza humana é também presente na obra de Sigmund Freud (2011), quando este descreve as pulsões de Eros (amor) e Thanatos (morte) que movem a vida do ser humano.
A pulsão de Eros é regida por um princípio de prazer, um impulso selvagem instintual (libido) para a reprodução – uma concepção fortemente influenciada pela teoria da evolução de Darwin – que quando não se concretiza precisa ser reprimida em sua meta, redirecionada para duas outras vias possíveis: da compulsão pelo trabalho; e do poder do amor familiar, do homem pela mulher e da mulher para os filhos. O mau direcionamento da libido ou sua repressão poderia então gerar estados neuróticos individuais e/ou coletivos, consequentemente promovendo indivíduos e sociedades doentias.
Adiante, Freud considera a necessidade de se reconhecer que não só de instintos do Eros e de ávido amor o homem é feito, mas também de severos instintos de morte e destruição. A partir de então, elabora uma crítica à sociedade de sua época, impressionado com os horrores e infelicidades que viveu e observou durante os períodos de guerra e pós-guerra. Retorna ao pensamento de Hobbes (apud Freud, p. 57, 2011) em uma de suas máximas, “Homo homini lupo” (o homem é o lobo do homem) e considera que mesmo estando os indivíduos aptos a ligarem-se pelo amor, é condição sine ne qua non que existam para isso outros indivíduos marginalizados desse processo aos quais pode-se lançar a destruição e a agressividade instintual, frutos do “narcisismo das pequenas diferenças” e  dos impulsos de morte (Thanatos). Dessa maneira, Eros e Thanatos, juntos, partilhariam o domínio do mundo.
Passados mais de 50 anos, a ciência psicológica ainda considera a assertiva de Freud quanto ao princípio de prazer. O neurocientista António Damásio (2012) nos elucida quanto ao funcionamento da maquinaria encefálica e seu sistema interno de preferências inerentemente predisposto a evitar a dor e procurar o prazer, estando este provavelmente pré-sintonizado a conseguir isto no âmbito das relações sociais. A partir daí, Damásio desenvolve a hipótese do marcador-somático, que seriam uma espécie de sinal inconsciente e de fator emocional que nos levaria a descartar possíveis decisões antes de estas passarem pela apreciação racional de uma lógica dedutiva de seleção.
Em suma, os marcadores-somáticos são um caso especial do uso de sentimentos gerados a partir de emoções secundárias. Essas emoções e sentimentos foram ligados, pela aprendizagem, a resultados futuros previstos de determinados cenários. Quando um marcador-somático negativo é justaposto a um determinado resultado futuro, a combinação funciona como uma campainha de alarme. Quando, ao contrário, é justaposto um marcador-somático positivo, o resultado é um incentivo (DAMÁSIO, 2012, p. 163).
Ou seja, evolutivamente desenvolvemos uma maquinaria encefálica fortemente balizada por emoções que nos ajuda a escolher de forma mais rápida - com base em registros anteriores apreendidos através dos processos de educação e socialização – que decisões devemos tomar cotidianamente. Indivíduos com defeito nessa função cognitiva podem demorar horas para tomar decisões relativamente simples como agendar uma consulta médica, ponderando inúmeras consequências e infindáveis comparações infrutíferas.
Pois bem, mas de que maneira isso pode interferir na forma como os indivíduos irão se comportar dentro de uma sociedade? Damásio responde está questão nos lançando na ventura da existência. Indivíduos que tiverem sorte de serem criados em uma cultura relativamente saudável acomodam-se, através dos processos de educação e socialização, aos padrões tidos como aceitáveis dessa cultura, pois temos uma maquinaria inata que facilmente se sintoniza com as prescrições culturais de determinada sociedade a fim de garantir a sobrevivência. Da mesma forma, o efeito de uma “cultura doentia” predominaria sobre a maquinaria normal da razão, gerando consequências desastrosas. O que não significa que não existam indivíduos que já nasçam com predisposições antissociais (psicopatas e sociopatas) ou que adquiram tais predisposições devido a alguma lesão cerebral (DAMÁSIO, 2012).
Então com relação à pergunta: “Por que o ser humano comete ações violentas e antiéticas?”. Estamos longe de ter uma resposta simples para esta questão. Tanto aspectos biológicos quanto aspectos culturais podem levar a tais comportamentos.
Entretanto, para que não incorrermos em uma espécie de determinístico biológico ou cultural, finalizo com uma hipótese bastante lúcida que Richard Dawkins desenvolve, a partir de sua lógica com base em um egoísmo genético (biológico) e memético (cultural), com relação à autonomia humana de rebelar-se contra suas condições originais.
“[...] mesmo que olhemos para o lado escuro e assumamos que o homem é fundamentalmente egoísta, nossa capacidade consciente de previsão - nossa capacidade de simular o futuro na imaginação poderia nos salvar dos piores excessos egoístas dos replicadores cegos. Pelo menos temos o equipamento mental para promover nossos interesses egoístas a longo prazo e não simplesmente aqueles a curto prazo. [...]Temos o poder de desafiar os genes egoístas de nosso nascimento e, se necessário, os memes egoístas de nossa doutrinação. Podemos até discutir maneiras de cultivar e estimular o altruísmo puro e desinteressado - o que não ocorre na Natureza e que nunca existiu antes em toda história do mundo. Somos construídos como máquinas gênicas e cultivados como máquinas mêmicas, mas temos o poder de nos revoltarmos contra nossos criadores. Somente nós, na Terra, podemos nos rebelar contra a tirania dos replicadores egoístas (p. 222, 2001).
Gabriel Horn Iwaya

Ps: a questão da autonomia, também renderia uma não menor discussão.
5. Referências
DAMÁSIO, A. R. O erro de Descartes: emoção, razão e o cérebro humano. São Paulo: Companhia das Letras, 2012.
DAWKINS, R. O Gene Egoísta. Belo Horizonte: Itatiaia, 2001.
FREUD, S. O mal-estar na civilização. São Paulo: Penguin Classic & Companhia das Letras, 2011.
GAZZANIGA & HEATHERTON. Ciência Psicológica. Porto Alegre: Artmed, 2005.
PADOVANI & CASTAGNOLA. História da Filosofia. São Paulo: Editora Melhoramentos, 1956.
ROSAS, ALEJANDRO. La evolución de la moral contractual. Ideas y Valores [online]. 2011, vol.60, n.147, pp. 209-222. ISSN 0120-0062.
Disponível em:
http://www.scielo.org.co/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S0120-00622011000300011&lng=en&nrm=iso

Acesso em: 29/07/2013.

domingo, 4 de agosto de 2013

RESENHA CRÍTICA – A ARTE DE AMAR (ERICH FROMM)
1. Identificação da obra
FROMM, Erich, A arte de amar. São Paulo: Martins Fontes, 2000.

2. Credenciais do autor: Nascido em 23 de março de 1900, Frankfurt, Alemanha. Psicanalista, filósofo e sociólogo. Foi diretor do Instituto de pesquisas sociais de Frankfurt e fez parte do grupo de psicanalistas marxistas junto de Reich e Fenichel. Lecionou na Columbia University de Nova Iorque (1934) e na Universidad Nacional Autónoma do México – UNAM (1950). Filiado ao movimento pacifista americano em 1957. Morreu em 18 de março de 1980, Muralto, Suíça.

3. Resumo da obra
            Neste livro, Fromm procura expor que o amor é um sentimento muito difícil de ser cultivado de modo pleno e é completamente dependente do nível de maturidade que cada ser alcança em sua existência. Desta maneira, quaisquer tentativas de cultivo desse sentimento estão fadas ao fracasso caso o indivíduo não procure, com máxima atividade, desenvolver sua personalidade total direcionada a uma orientação genuinamente produtiva. O ápice do sentimento de amor individual só pode ser atingido através da capacidade de amar ao próximo. Uma atitude que deve ser balizada pela humildade, coragem, fé e disciplina.
             Em uma sociedade que considera o “ser amável” um misto de popularidade com atração sexual, onde perdura o conceito de um “amor romântico” egoísta e se atribuem as relações de amor os mesmo padrões utilitários da lógica de mercado, é impossível que se desenvolva verdadeiramente um sentimento de amor por inteiro.  Daí a necessária urgência de se superar essa falência amorosa através do domínio da “arte de amar” que como qualquer arte exige para seu aprendizado a compreensão de seus aspectos teóricos e práticos além de uma extrema preocupação do “artista” com o desenvolvimento de sua arte.
            O amor deve ser visto como uma resposta amadurecida ao problema da existência. Antes de tudo, consiste em dar e não em receber. Exige preocupação ativa pela vida e crescimento daquilo que amamos e envolve de maneira interdependente aspectos como: cuidado, responsabilidade, respeito com liberdade e conhecimento. Implica por sua vez o desprendimento dos sonhos narcisistas de onisciência e onipotência, sem limites, da cultura pós-moderna.
            É essencial reconhecer na existência humana o fato de este ser o único ser que se rebelou contra a adaptação instintiva. Ser que se desvia da natureza, embora ainda seja parte integrante dela, através da razão e que uma vez expulso do paraíso já não pode mais retornar ao seu estado original de união com o natural. Deve seguir em frente em busca de uma nova harmonia que substitua a harmonia pré-humana anteriormente perdida. Agora, como raiz do fato de ter-se feito consciente de si mesmo, lhe anima uma necessidade de transcendência que lhe justifique sua inclusão no cosmo devido a sua insatisfação com o fato de cumprir o papel passivo de Ser criado.
            Inúmeras são as formas de satisfazer essa necessidade de transcendência. A mais natural é o próprio cuidado e amor que uma mãe tem por sua criatura e que lhe dá significação para a vida. Pela própria impossibilidade de satisfazer suas necessidades dessa forma, o homem procura então transcender por meio do trabalho, da criação das coisas e ideias.
            No entanto, não existe possibilidade de transcendência plena desprendida de uma prática da arte de amar. Essa arte, por sua vez, dá-se de diferentes formas dependendo do objeto que é amado: amor materno; amor fraterno; amor erótico; amor próprio; amor a deus. Distante da prática dessas formas de amor o que resta é o desmoronamento das tradições culturais em meio a numerosas formas de pseudo-amor que na realidade colocam-se só como meios de desintegração do amor.
            A prática da arte de amar, que ainda hoje se configura como fenômeno marginal na sociedade ocidental, exige por fim a prática da fé racional: a fé na capacidade revolucionária do homem de livrar-se do narcisismo que o corrói; a fé nas potencialidades do homem de criar e edificar uma ordem social governada pelos princípios da igualdade, da justiça e do amor.

4. Crítica do resenhista:
            Erich Fromm, visivelmente influenciado pelos textos de Sigmund Freud e Karl Marx, expõe de forma lúcida sua crítica ao modelo de sociedade contemporânea que vem se formando no século XX. Apontando que este caminho, norteado pela lógica de mercado e construído com base em uma visão racionalista e cientificista da realidade só resolve problemas técnicos gerando soluções insuficientes e insustentáveis, desviando-se por sua vez dos reais problemas existenciais da humanidade.
Embora, naturalmente somos seres egoístas impulsionados ainda por instintos primitivos e cegos de replicação genética. Somos também a única espécie capaz de reconhecer esse fato e de criar as condições necessárias para transcendência dessa realidade. Somos seres dotados do poder de recriar novas formas de “ser humano”, de se adaptar e sobrepor-se a miséria e a opressão atual.

Se a arte de amar, em um primeiro momento, se apresenta como um paradigma bastante audacioso e quase impossível de cumprir-se, o amor em si mesmo apresenta-se também como a única possibilidade, como uma utopia capaz de impor os limites necessários ao narcisismo onisciente e onipotente da civilização contemporânea.
Gabriel Horn Iwaya

terça-feira, 24 de maio de 2011

GASTRÔNOMOS COLETIVOS EM REDE

Para além da questão gastronômica, o movimento do slow food, nos instiga a (re)ver as relações complexas dos alimentos através de outras óticas, por ventura – ou não?! – esquecidas, que incluirão novas variáveis – as chamadas, externalidades negativas, da economia política - a serem consideradas no debate, como as condições do trabalhador rural, problemas ambientais, homogenização cultural dos povos, acelerado ritmo de vida e a globalização. Ou seja, ao questionar o comportamento humano diante da desigualdade, o gastrônomo preocupa-se com aquilo que o cerca, passa a ser um novo tipo de indivíduo, agora coprodutor do alimento, consciente de que é parte de uma comunidade de destino. É preciso redimensionar a disciplina da Gastronomia, proporcionando sua abertura para outros níveis de complexidade, convocando todas as diversas ciências que lhe possam render conexões. A partir daí o gastrônomo estabelece compromissos – de formação continuada, de respeito aos saberes tradicionais e de co-produção – onde comer não é apenas nutrir-se, mas sim, ato agrícola e produzir deve ser uma ato gastronômico. O verdadeiro gastrônomo coletivo - rede de gastrônomos – nutre-se da diversidade, da solidariedade em prol de um bem comum, subsidiado por quatro etapas principais: 1ª) examina os problemas globais e detecta causas no sistema alimentar; 2ª) faz uso da ciência complexa e identifica sua impotência sem a completude do outro; 3ª) ao reconhecer-se no outro, iguala-se, solidariza-se, e educa-se com o outro; 4ª) a partir daí descobrem-se as parcerias que constituirão a rede, que tem fome de mudança e vontade de fazê-la. Por isso a formação gastronômica não ocorre só na leitura ou na frequência de restaurantes – ou seja, não só teórico ou só prático – mas na experiência que conflui na formação individual, no convívio com os que pensam, produzem e/ou transformam o alimento, estabelecendo uma conexão com a terra, a favor de uma produção-consumo mais justa, sustentável e agradável. (PETRINI, 2009)

quarta-feira, 29 de dezembro de 2010

Santi Santamaria e seu livro "A Cozinha a Nu"

Estamos em um momento-chave para que aflorem novas ideias que nos permitam corrigir alguns vazios. Precisamos de artistas e cientistas que nos ensinem caminhos novos ou redescubram caminhos velhos com a esperança de encontrar entre o nomadismo um pensamento que divise um mundo melhor. O cosmopolitismo bem entendido é o do viajante, não o dos cozinheiros. Não se trata de cozinhar à moda japonesa no vale do Jerte porque isso seja cosmopolita; erro crasso: o verdadeiro cosmopolita é o viajante que decide desfrutar da cozinha do vale do Jerte sem impor as preferências de sua cultura de origem. O cosmopolita escolhe, o patriota reafirma. Cosmopolita é aquele que escolhe ser patriota em terre estranha (pg. 83)

Não podemos renunciar a alguns princípios éticos se não quisermos utilizar nosso prestígio para acabar enchendo de excrementos as bocas das próximas gerações. Sejamos autocríticos.

Os cozinheiros de hoje falam tanto de arte como de cozinha: musica, pintura, arquitetura; opinamos, inclusive, sobre política, e tudo isso é lógico, porque quais são os objetivos se não ajudar a melhorar uma sociedade que luta contra as injustiças que ela própria gera? A partir das cozinhas temos que ajudar a construir um mundo em que as leis do mercado não nos façam renunciar à integridade da condição humana (pg. 175)

Adotemos um ponto de vista aberto, sem preconceitos, laico, e julguemos os pratos e a cozinha pelo que são, elogiemos quem mereça ser elogiado, desconfiemos dos improvisadores, dos mistificadores e, sobretudo, das ideologias […].

Devemos basear o nosso credo gastronômico na premissa de que a cozinha de hoje e mais ainda a de amanhã tem que ser boa e saudável em sentido lato; todas as demais distinções sobre tendências, inspirações, matrizes, escolas, modelos, produtos, território, etc., são secundárias (pg. 230-231).

Um dos grandes desafios dos cozinheiros de hoje é evitar que, com a imediatez midiática que vive a profissão, nos transformemos nos bufões dos esnobes. Por isso temos que dar conteúdo ético aos nossos pratos, começando pelos ingredientes que os compõem. Aceitemos todo progresso tecnológico fruto de conhecimento e do aprofundamento de processos e métodos científicos, sempre que estes não traiam nem destruam o direito fundamental à diferença entre as pessoas e a coletividade. E lutemos para que o cozinheiro não se veja obrigado a cozinhar para nada nem ninguém, senão de acordo com os ditames da sua consciência. O artista tem o direito de morrer de fome em vez de prostituir sua arte (pg.231-232).

Nossa grande força como cozinheiros e como artistas é a intuição, e é a intuição que nos impulsiona também a investigar o componente espiritual da cozinha – algo que alguns se negam a reconhecer que fazemos, e por isso nos conduzem por caminhos funcionais, materialistas e tecnológicos. Quando a cozinha forma o ser humano, moldando seus conhecimentos, despertando seus sentidos e provocando sua reflexão intelectual, não há dúvida de que falamos de arte, não apenas de alimentação. E pode ser que alimentar o pensamento, mais que o corpo, seja algo secundário, um desvio mais ou menos aberrante dos objetivos fisiológicos dos alimentos, mas graças a esta perversão podemos ajudar a projetar um mundo diferente, que alguns de nós perdemos a esperança de que seja, algum dia, melhor (pg.233).


Saiba que, em nome da cozinha, penso me dedicar cada dia mais a uma pedagogia ativa em favor de uma alimentação saudável, saborosa, respeitos com o território e em conformidade com nossas culturas mediterrâneas(pg.236).

domingo, 19 de dezembro de 2010

Altay Veloso - O Alabê de Jerusalém

Mãe Terra

“Ah, meu Deus! Assisto com muita tristeza a pena da aspereza dilacerando a beleza de uma linda sinfonia. A aguarrás de juizes, ciumentos inflexíveis, descolorindo as matizes de uma linda pintura, só porque não gostam da assinatura?”

“E vai com uma bailarina, com a inocência de menina, dançando em volta do sol, a Grande Mãe Terra. Enquanto muitas nações, governos, religiões ensaiam a dança da guerra.”

“Na verdade a bola azul quase nunca foi amada; é sempre penalizada. Tem um trabalho enorme, dedicação e talento para preparar a mistura, juntar os seus elementos para dar forma às criaturas, e elas, depois de paridas, desconhecem a matriarca e dizem, mal agradecidas: que a carne é fraca.”

“E quando o planeta gera um Avatá, um iluminado assim como o Nazareno, tem logo quem se apresenta com conhecimento profundo e diz logo: não é desse mundo, só pode ser extraterreno.”

“Ah, é difícil entender porque é que o homem, até hoje, cospe no prato que come. Algumas religiões, não sei por qual motivo, dizem que a Terra é um território com vocação pra purgatório, não passa de sanatório... E que nós só seremos felizes longe dela, bem distante, lá onde os delirantes chamam de paraíso.”

“Olha, eu vou dizer de coração. Na minha simples, dia após dia, me perdoem a liberdade, mas religião de verdade, mais parecida com a que Jesus queria, talvez seja sentimento de ecologia. Para esse sentimento não tem fronteiras e só reza um mandamento: preservação das espécies com urgência, sem adiamento.”

“Hoje, ela pensa nas plantas, nos rios, no mar, nos bichos. Amanhã, com certeza, com a mesma dedicação e capricho, pensará com muito cuidado nos meninos abandonados.”

“Ah, se ela tivesse mais força para sustentar sua zanga, evitaria, com certeza a fome cruel de Ruanda. Não tinha maturidade, ainda era uma menina, quando a impertinência sangrou, com a bola de fogo, a pobre Hiroshima. Mas ela cresce, se instala como uma prece no coração das crianças. Tenho muitas esperanças...”

“Eu tenho toda a certeza que nosso planeta um dia, mesmo cansado, exausto, terá toda a garantia e guardado por uma geração vigia, nunca mais verá a espada fria no Holocausto.”

“A intolerância, repito, é a mais triste das doenças. Não tem dó, não tem clemência. Deixa tantas cicatrizes nas pessoas, nos países, até as religiões, guardiãs da Luz Celeste, abandonam seus archotes para empunhar cassetete. E o que, na verdade, refresca o rosto de Deus, é um leque, que tem uma haste de Calvino e outra de Alan Kardec.”
“Na outra haste, as brisas, que vêm das terras de Shivas, são uma, dos franciscanos, e outra, dos beduínos. Não precisa ir muito longe... Jesus nasce entre os rabinos.”

“Às vezes corações que crêem em Deus, são mais duros que os ateus. E jogam pedra sobre as catedrais dos meus deuses Yorubás. Não sabem que a nossa terra é uma casa na aldeia, religiões na Terra são archotes que clareiam.”

DE ALTAY VELOSO


...assistam!


sábado, 27 de novembro de 2010

Divagações

[...]Torturava-se com recriminações, mas terminou por se convencer de que era no fundo normal que não soubesse o que queria: nunca se pode saber aquilo que se deve querer, pois só se tem uma vida e não se pode nem compará-la com as vidas anteriores nem corrigi-la nas vidas posteriores.[...] (A insustentável leveza do ser – Milan Kundera).

[...]Não existe meio de verificar qual é a boa decisão, pois não existe termo de comparação. Tudo é vivido pela primeira vez e sem preparação. Como se um ator entrasse em cena sem nunca ter ensaiado. Mas o que pode valer a vida, se o primeiro ensaio da vida já é a própria vida? E isso que faz com que a vida pareça sempre um esboço. No entanto, mesmo esboço não é a palavra certa porque um esboço é sempre um projeto de alguma coisa, a preparação de um quadro, ao passo que o esboço que é a nossa vida não é o esboço de nada, é um esboço sem quadro.[...] (A insustentável leveza do ser – Milan Kundera).

quarta-feira, 17 de novembro de 2010

Utopias necessárias!

Breve História dos Mitos – Karen Armstrong

Não podemos nos recriar completamente, cancelando a ênfase racionalista de nossa educação, e retornar a uma sensibilidade pré-moderna. Mas podemos adquirir uma atitude mais sábia em relação á mitologia. Somos criaturas de mitos, e durante o século XX vimos alguns mitos modernos extremamente destrutivos. […] Eles não foram contemplados com o espírito de compaixão, do respeito pelo caráter sagrado de todas as formas de vida, ou com o que Confúcio chamava de “propensão”. […] Precisamos de mitos que nos ajudem a nos identificar com nossos semelhantes, e não apenas com quem pertence a nossa tribo étnica, nacional ou ideológica. […] precisamos de mitos que nos auxiliem a novamente venerar a terra como lugar sagrado, em vez de utilizá-la apenas como “recurso”.


O Povo Brasileiro - Darcy Ribeiro

sexta-feira, 12 de novembro de 2010

Claude Lévi-Strauss - O Cru e o Cozido

"Não duvidemos nem por um instante que a consideração de outros documentos, publicados ou a publicar, afetará nossas interpretações. Algumas delas, aventadas prudentemente, talvez recebam uma confirmação; outras serão abandonadas ou modificadas. Mas não seja por isso: em disciplinas como a nossa, o saber científico avança aos tropeços, fustigado pela contenda e pela dúvida. E deixa a metafísica a impaciência do tudo ou nada. Para que nosso empreendimento seja válido, não é necessário, em nossa opinião, que goze durante anos, e até os mínimos detalhes, de uma pretenção de verdade. Basta que lhe reconheça o modesto mérito de ter deixado um problema difícil numa situação menos ruim do que aquela em que o encontrou. Não devemos esquecer que na ciência não pode haver verdades estabelecidas. O estudioso não é o homem que fornece as verdadeiras respostas; é aquele que faz as verdadeiras perguntas."

terça-feira, 26 de outubro de 2010

Simplificando Carlos A. Dória - A Formação da Culinária Brasileira

O que é cozinha brasileira? Difícil definir. Poder-se-ia responder, exemplificando-a em uma coleção de pratos, mas falta algo que a unifique, para que a história tenha significado real com uma visão generalizada e atual, e a cozinha brasileira parece coisa do passado embora seja bastante recente.

Só começa-se a montar uma definição do que é a cozinha brasileira atual no período do movimento Modernista, na primeira metade dos anos 1920. Na mesma época que se “descobriu” o barroco como estilo arquitetônico, armou-se o discurso sobre a cozinha brasileira definindo-a como um conjunto de elementos dos modos de comer (dos índios, africanos e portugueses) que unidos formam um todo. Depois coube ao turismo difundir essa idéia fazendo com que as pessoas viajem pelas diversas regiões do Brasil, que o IBGE ocupou-se em dividir em estados, como se fossem em busca de um pedaço dela.

Na verdade olhando por esse ponto de vista, deixa-se de lado a geografia, os ingredientes e produtos que cada biodiversidade nos apresenta, perdesse uma história que nos esquecemos de contar, dessa cozinha mestiça cheia de “mandingas” que de certa maneira nos orgulhamos. Mas como na filosofia, que nos ensina que onde só um é livre, ninguém é livre, na culinária do mesmo modo, onde não há liberdade não prospera a evolução. Isso quer dizer que o colonialismo foi, para o Brasil, uma espécie de “idade média”, transformando o solo em um terreno estéril, para a culinária moderna, nada de novo se criou ou reinventou-se.

O interessante é que logo nos grandes centros, alvos de estímulos e novas tendências, que começou a surgir um olhar, talvez defensivo, a favor da cozinha brasileira, inovando-a, re-criando de forma mais sofisticada e mostrando-a a um público ávido por novidades. O estranho é que pesquisas indicam que o hábito do consumo doméstico dessa culinária desapareceu. Ora se “comer à brasileira” se tornou marginal, de que maneira podemos dizer que comemos?!

Isso levanta a idéia de que hoje a sociedade brasileira come o que a propaganda manda e segue ideologias nutricionais distorcidas. Não se sabe mais se chocolate, ou azeite, ou café, ou vatapá, faz bem ou mal, tornando os alimentos problemas para a vida, logo eles que são justamente as fontes da mesma.

A idéia principal é a partir de uma análise mais ampla, retirar o “pré-conceito” de que nossa cozinha é formada, de forma étnica, da miscigenação de negros, índios e portugueses, colocando maiores possibilidades no cardápio do que definimos como comida brasileira.


Para entender um sistema culinário nacional


Cabe então aos intelectuais fazer uma peneira do que seria a “cultura do povo”, revendo sistemas simbólicos articulados e materializando seus conceitos para criação de uma culinária nacional.

A nação moderna se forma, segundo intelectuais, a partir do momento em que se existe um território, uma língua, um exército, tradições partilhadas pela população, religião, culinária, que se imponha pela vontade, da maioria, do povo de pertencer a esse agrupamento, para que possa acordar de manhã e se autodenominar brasileiro ou estadunidense ou mexicano, etecetera.

Essa imposição de características a nação vem seguida da vontade do povo em “obedecê-las”. Para uma re-invenção da nação moderna então é preciso primeiro resgatar as origens perdidas no tempo e desenhá-las novamente, porem é daí nasce a dificuldade, pois são poucos os registros que esmiúçam essa antiga cultura nacional perdida. São poucos os livros que relatam a cozinha do dia-a-dia das regiões do Brasil e os poucos ainda são generalizados e não classificatórios, por exemplo: é comida das classes altas ou baixas, costumes da população rural ou urbana, o que ganhou corpo suficiente para caracterizar tal região e qual o motivo da escolha? Vale ressaltar que devem ser vistos os costumes até então excluídos, que por alguma razão não estavam agrupados ao núcleo social e político, considerado menos importante. Impossibilita-se então criar um referencial para o que seria a cozinha burguesa, ou cozinha rural, ou cozinha nacional, na atualidade, sem esse estudo dirigido a cada tema.

Religião “de negro”, cozinha “de bugre” foram modos que a elite portuguesa acho para se separar de possíveis comparações, adotando hábitos europeizados, de forma a expressar bem esta certa divisão que ocorreu na construção do terreno cultural. O afrancesamento no período de Dom João tomou grandes proporções a ponto de alterar ou até ocultar certos costumes, a burguesia se desprendeu dos hábitos de raízes brasileira e substituiu-os pelos franceses, perdendo o “orgulho nacional” pela culinária nativa, mas não distante dessa realidade há a realidade do caboclo, do bugre, das classes baixas ainda de certa forma fixa.

A culinária nacional forma-se então de uma visão geral disso, mas não só de conjuntos de receitas, nela são agregados os tabus alimentares, a aceitabilidade de ingredientes e a idéia da “nobreza” de cada um, as comidas de festa, técnicas para manejo de cada matéria-prima etc.

Não cabe a nós julgar o certo ou o errado dentro disso tudo, basta que se reconheça a grande multiplicidade e todos os pontos que são precisos considerar-mos para que se possa então pensar em formar uma idéia real do que seria a culinária nacional.

Portanto, permanece o mistério sobre a formação da culinária brasileira, cabendo a nós interrogarmos a história e a cultura de cada povo para iluminar as soluções de como se forma a nossa “língua culinária”.

terça-feira, 12 de outubro de 2010

Nada como uma boa roda de samba para relaxar..
e se for no sábado? e se tiver comida? e se for feijoada? completa?


Feijoada completa - Chico Buarque

Mulher
Você vai gostar
Tô levando uns amigos pra conversar
Eles vão com uma fome que nem me contem
Eles vão com uma sede de anteontem
Salta cerveja estupidamente gelada prum batalhão
E vamos botar água no feijão

Mulher
Não vá se afobar
Não tem que pôr a mesa, nem dá lugar
Ponha os pratos no chão, e o chão tá posto
E prepare as lingüiças pro tiragosto
Uca, açúcar, cumbuca de gelo, limão
E vamos botar água no feijão

Mulher
Você vai fritar
Um montão de torresmo pra acompanhar
Arroz branco, farofa e a malagueta
A laranja-bahia ou da seleta
Joga o paio, carne seca, toucinho no caldeirão
E vamos botar água no feijão

Mulher
Depois de salgar
Faça um bom refogado, que é pra engrossar
Aproveite a gordura da frigideira
Pra melhor temperar a couve mineira
Diz que tá dura, pendura a fatura no nosso irmão
E vamos botar água no feijão

quinta-feira, 7 de outubro de 2010

Em 1825, Jean Antheleme Brillat-Savarin escreveu em sua obra-prima, “The Physiology of Taste” (A Fisiologia do Sabor), que “[...] o destino das nações depende da maneira como são alimentadas”, definindo a gastronomia de forma ampla relacionando-a, a história natural (pela classificação que faz das substâncias alimentares), a física (pelo exame dos componentes e de suas qualidades), a química (pelas análises e decomposições a que submetem tais substâncias), a culinária (pela arte de preparar as iguarias e torná-las agradáveis ao gosto), economia (pelas fontes de renda que apresenta), a política (pela troca que ela estabelece entre as nações).

“A gastronomia governa a vida inteira do homem; pois os choros do recém-nascido reclamam o seio de sua ama-de-leite, e o moribundo recebe ainda com prazer a porção suprema que, infelizmente, não pode mais digerir. Sua influência se exerce em todas as classes da sociedade; pois ela que dirige os banquetes dos reis reunidos, também é ela que calcula o numero de minutos de ebulição necessários para que o ovo fresco seja cozido ao ponto.” (BRILLAT-SAVARIN, pg.58, 2005).

Quando sentamos a mesa, junto de familiares, amigos ou colegas de trabalho, quando participamos de datas festivas, comemorações familiares, matrimônios, celebrações típicas ou quotidianamente, para nos alimentarmos, desempenhamos um tarefa maior do que apenas garantir a nossa restauração biológica, ao comermos, reparamos nossas perdas e prolongamos nossa existência. Objetivamos uma melhor alimentação, e “arranjar” tempo para saborear, é uma forma simples de tornar o corriqueiro mais prazeroso, otimizando a qualidade de vida. Resumidamente, essa e a filosofia “Slow Food”.

A alimentação transcende apenas a restauração, torna-se um centro da vida e convivência do homem em grupo, esta tem uma profunda influência no que nos rodeia - a paisagem, a biodiversidade da terra e as suas tradições. Para um verdadeiro gastrônomo é impossível ignorar as fortes relações entre prato e planeta. Toda essa complexa rede de processos alimentares, que faz com que os alimentos, nascerem, germinem, crescerem, até serem encaminhados, transportados, sofrendo as mais diferentes alterações para então se tornem o pão e o vinho.

Fundado em 1986 em Itália, o Slow Food tornou-se uma organização internacional sem fins lucrativos em 1989 e é atualmente composto por cerca de 850 ‘Convivia’ ou células locais do movimento, cuja força reside na sua vasta rede de mais de 100.000 associados.

A sede internacional do Slow Food é em Bra, Itália. O Slow Food opera tanto localmente, como junto de instituições internacionais como a FAO - Organização das Nações Unidas para a Agricultura e a Alimentação. Estabelece laços de amizade com governos em todo o mundo, prestando consultoria para o Ministério da Agricultura italiano, trabalhando com o presidente da câmara de Nova Iorque e colaborando com o governo Brasileiro.

O Movimento “Slow” busca através dos seus conhecimentos gastronômicos relacionados com a política, a agricultura e o ambiente, juntar o prazer pela alimentação ao consumo consciente e sustentável, defender a biodiversidade na cadeia de distribuição alimentar, difundir a educação do gosto, e aproximar os produtores de consumidores.

“Bom, Limpo e Justo: Manifesto Slow Food para a Qualidade” é um dos meios criados pela organização para conscientização, tornando-se uma opção ecologicamente correta, não só para restituirmos nossas necessidades biológicas, mas para tornar o momento da refeição algo prazeroso.

“O sabor, a biodiversidade, a saúde de humanos e animais, o bem estar e a natureza estão sob ataque contínuo. Isto põe em risco o próprio desejo dos gastrônomos de comer e produzir alimentos e o exercício do direito ao prazer sem causar danos à existência dos outros e ao equilíbrio ambiental do planeta que vivemos.” (Site Slow Food Brasil).

De acordo com o manifesto deve-se observar três qualidades que um alimento deve ter:

      1. Bom: o sabor e aroma do alimento, reconhecido por sentidos educados e bem treinados, é fruto da competência do produtor e da escolha de matérias primas e métodos de produção, que não devem de maneira nenhuma alterar sua naturalidade.

      2. Limpo: O ambiente tem que ser respeitado e práticas sustentáveis de agricultura, manejo animal, processamento, mercado e consumo devem ser levados em consideração. Cada estágio da cadeia de produção agro-industrial, incluindo o consumo, deve proteger os ecossistemas e a biodiversidade, salvaguardando a saúde do consumidor e do produtor.

      3. Justo: A justiça social deve ser buscada através da criação de condições de trabalho respeitosas ao homem e seus direitos e deve ser capaz de gerar remuneração adequada; através da busca de economias globais equilibradas; pela prática da simpatia e solidariedade; pelo respeito às diversidades culturais e tradições.

Para conseguir atingir esse objetivo é necessário antes estabelecer uma conexão afetiva religando o sujeito ao objeto (homem/natureza) para criar-se uma consciência Gastronômica incutindo na formação acadêmica o paradigma da alimentação boa, limpa e justa. Para que se possa a partir daí criarem-se estratégias que possibilitem o estudo e disseminação do tema a partir de um método inovador no processo de aprendizagem.

Segue, para a formação de uma melhor conceituação do movimento Slow, uma matéria exibida na Globo News, no programa Cidades e Soluções.

quarta-feira, 6 de outubro de 2010

Slow Food: por uma visão complexa da Gastronomia

Na caminhada de um gastrônomo, rumo a complexidade, mais cedo ou mais tarde encontrariam-se paradigmas fantásticos que extrapolariam os campos disciplinares tecendo conexões entre as ciências, a ponto de não só interliga-las mas também unificá-las, em busca de um prol maior, formando uma visão holística da Gastronomia e suas relações com o indivíduo, aqui em questão, a sociedade e o natural.

Embora Gastronomia já tenha seu campo de estudo consolidado dentro das ciências sociais com vasto referencial teórico técnico e histórico, são recentes as empreitadas a caminhos que transcendam suas próprias limitações disciplinares e que livrem-na das “cegueiras da especialização”, tão características do currículo atual de formação universitária.

Os princípios do Slow Food observam as relevâncias além do prazer gustativo que o alimento pode oferecer ao comensal, respeitando as complexas ligações inerentes ao alimento, defendendo um meio de produção que gere alimentos de bom sabor e qualidade, cultivados de forma limpa e sustentável onde os produtores recebam o pagamento justo pelo que produzem. Bom, limpo e Justo é a tríade levantada pelo movimento do Slow Food que servem como balizas para o nascimento desta visão renovada da Gastronomia, não só para os caminhantes da complexidade mas para todos que buscam uma forma mais cidadã, humana, natural e sustentável de se viver,

Este projeto busca encontrar uma metodologia inovadora nos processos de aprendizagem dos cursos de formação em Gastronomia que despertem nos alunos os princípios da complexidade rumo a uma interdisciplinaridade, fundamentado em revisões bibliográficas que extrapolem os campos disciplinares estabelecendo diálogos entre autores com, Edgar Morin, Luís da Camara Cascudo e Carlo Petrini, Santi Santamaria entre tantos outros grandes pensadores.

O Slow Food: por uma visão complexa da Gastronomia não surge com o propósito de ocupar ou desqualificar o currículo disciplinar dos cursos de formação em Gastronomia. O objetivo aqui em questão é o de agregar conhecimentos de forma a aprofunda-los em busca de uma essência que refaça os elos rompidos da tríade, humano, sociedade e natureza, que transcendam as dicotomias cartesianas, presentes do sujeito/objeto.


Autor.


quinta-feira, 5 de agosto de 2010

Como posso ser útil?

De que forma um cozinheiro pode provocar mudanças no meio em que está incluso?

Esta é, de alguma forma, a pergunta que me faço nos últimos 4 anos de estudo da Gastronomia. Como posso eu me tornar algo mais do que um mero executor de receitas e piloto de fogões industriais?

É com esse fim que crio esta página para que, de alguma forma, consiga organizar melhor minhas idéias e criar algum tipo de trabalho voltado as novas ramificações da gastronomia, agora mais conscientes do seu papel e poder de influência na sociedade.